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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um olhar pra não esquecer




Em uma viela é feito, em um coração gravado, cada sentimento sonhado realizado. Aquela porta vermelha jamais sairá da memória, a porta que sempre me chamou e eu nunca tive coragem de bater. A janela verde com o garoto triste a olhar, mas eu sempre fui tímida o bastante para não convidar. Sim, eu cresci alí, correndo por aquela viela, rindo, gritando, caindo, aprendendo, às vezes chorando. Bem alí. Eu cresci. Cada vez menos passava por lá até um dia não mais passar. Cada vez menos eu via ele me olhar, sonhadoramente, tristemente, refexivamente, encantadamente com aqueles olhos castanho-esverdeados de príncipe, os cachos negros que uma vez ou outra eram tocados pela brisa, as bochechas um pouco rosadas. Um  rosto, sem dúvidas, bonito e na minha inocência infantil fantasiava um amor platônico.
Em um dia de ousadia, dos meus 7 anos, deixei um bilhetinho na janela com uma letra horrorosa de quem ainda aprende a escrever "você é muinto bonito principe". É! Desse jeito mesmo, com todos esse erros ortográficos. E não contente com o bilhete deixei também um desenho dele na janela - ou era pra ser porque tenho minhas dúvidas quanto ao que parecia...
Quase 13 anos depois tenho secretamente a desconfiança de que ele sabia quem havia deixado o bilhete, pois ele sorriu uma vez pra mim - a única vez que o ví sorrindo - alguns dias depois da minha pequena ousadia.Tantos anos e ainda espero o dia em que possa vê-lo de novo. Na casa de porta vermelha já não mora mais, mas com certeza reconheceria aqueles olhos e o breve sorriso se um dia os ver de novo.

domingo, 26 de abril de 2009

Já é noite e eu ainda ando sem rumo, nada está real, pessoas indiferentes, parecem almas a vagar, pareço alma a chorar. A chuva começa a cair, vejo algumas garotas correrem, um garoto dá seu moleton e um beijo à namorada, uma criança na janela. Continuo a andar sentindo a chuva gelada em meu corpo. Enquanto percorro a calçada chuto algumas pedrinhas, estou por passar aquele portão..., passo.
Não pensei que seria tão difícil. "Enquanto eu falava ele permanecia mudo, passou a mão pelos cabelos sete vezes - sim, eu contei - ; fitou o chão quase o tempo todo, não conseguia olhar para mim, não naquele momento... eu também não me atrevia a olhar seu rosto, fitava meus pés e falava torrencialmente. Senti a respiração dele pesada. Calei-me. Fiquei alí, imóvel por alguns segundos. Só havia silêncio. Criei coragem e o olhei. Seus olhos... Olhos castanhos que sempre me facinaram fitavam meu rosto onde havia uma expressão dura. Um arrepio me tomou. Eu via alí súplica, medo, decepção e o que eu mais temia... amor. Eu não aguentava mais, dei-lhe as costas e saí para onde meus pés me levassem, deixei-o alí parado, sozinho e fugi." Fugi para onde meus pés me levavam.
Estava andando havia algumas horas e agora eu sabia para onde estava fugindo. Paro. Há alguém alí. Tenho que voltar mas meu corpo não responde, está escuro e eu pouco enxergo. A silhueta se aproxima e eu continuo parada, estática, sem mexer um único músculo.
O único som, além do som da chuva, é o farfalhar das folhas a cada passo dado por aquela pessoa. Silêncio...
-Você demorou... cheguei a pensar que não viria...
Não posso chorar!
Lágimas caem, arrependimento...
-Me perdoa...?
Ele se aproxima, me envolve em um abraço quente, alívio. Choro incontrolavelmente.
Deixo a condição de alma e volto a ser garota, a garota que esteve por cometer o pior erro de sua vida...







Tenham um bom dia!
=)